São poucos os visitantes que chegam a Rabat sem, mais cedo ou mais tarde, se depararem com o Bab el Had. Este imponente portão de pedra remonta ao século XII, e continua a ser a entrada principal da antiga medina. Mas não é apenas um portão. Marca o ponto exato onde a cidade moderna termina e onde um ritmo de vida completamente diferente toma conta do local.
A praça à sua volta segue o seu próprio ritmo. De manhã, sente-se o aroma a hortelã fresca e o cheiro a pão acabado de cozer das bancas nas proximidades. À tarde, toda a zona transforma-se num ambiente barulhento e colorido, onde se desenrola uma negociação entre os vendedores e quem quer que esteja disposto a parar para dar uma segunda olhadela.
Este guia orienta através da história, do ambiente e dos pormenores práticos de uma visita à região. Sem os clichés de sempre sobre viagens, apenas o tipo de informação que realmente ajuda a orientar-se e a compreender o que está a ver.
Por que razão Bab el Had é importante para a história de Rabat?
A maioria dos monumentos de Rabat conta uma história que tem início algures nos últimos dois ou três séculos. Este antigo portão remonta a tempos muito mais antigos. Compreender este portão significa ir às raízes da forma como Rabat se tornou uma cidade, e por que razão a sua medina continua a funcionar da forma como funciona hoje em dia.
Quem construiu Bab el Had e porquê
O Dinastia almóada construíram este portão durante a segunda metade do século XII, enquanto fortificavam Rabat como base militar para as campanhas contra Al-Andalus. Fazia parte de uma muralha defensiva que incluía cinco portões e várias torres de defesa, estando o Bab el Had situado no extremo ocidental, virado para a costa atlântica. De acordo com a UNESCO, as muralhas e portões almóadas estão classificados como elementos-chave da designação de Rabat como Património Mundial, inscrita em 2012 sob o título “Rabat, capital moderna e cidade histórica: um património partilhado.”
Naquela altura, Rabat não era uma capital. Funcionava como um ribat, uma base fortificada para soldados, e tudo no seu traçado refletia essa finalidade. Grande parte da alvenaria original que ainda hoje se pode ver resistiu a quase nove séculos de intempéries, cercos e expansão urbana, o que diz muito sobre a engenharia envolvida na sua construção.
De que forma o portão influenciou o crescimento de Rabat?
À medida que Rabat passou de um posto avançado militar a um centro comercial, Bab el Had foi mudando de finalidade em paralelo com essa evolução. O portão passou a ter um papel menos defensivo e mais comercial, que assinala o local por onde as mercadorias entravam na medina vindas da zona rural circundante. Quando o Protetorado Francês foi estabelecido, em 1912, a zona circundante já se tinha consolidado como uma das zonas comerciais mais movimentadas da cidade.
Essa transição ainda é visível hoje em dia. Onde antes passavam soldados, agora encontram-se habitantes locais a fazer as compras semanais e turistas a tentar descobrir para onde conduz cada viela. Poucos portões em Marrocos conseguiram manter-se tão relevantes ao longo de tantos séculos, e só isso já faz com que este marco almóada mereça mais do que uma foto rápida à entrada.
O que faz da Praça Bab el Had o coração da medina de Rabat
Assim que se atravessa o portão, o ambiente muda imediatamente. A Praça Bab el Had é o local onde a medina se revela, de forma intensa, sem filtros e completamente indiferente ao ritmo que se tinha em mente. Tudo o que define a vida quotidiana nesta parte de Rabat acontece num raio de algumas centenas de metros deste local.
O que pode encontrar no mercado de domingo e nos souks
Todos os domingos, a zona em redor de Bab el Had transforma-se num dos maiores mercados ao ar livre de Rabat. Os habitantes locais chamam-lhe «souk el had», e atrai multidões de toda a cidade, não principalmente turistas, mas famílias que vão fazer compras para a semana. Encontrará de tudo, desde produtos sazonais e especiarias até aparelhos eletrónicos baratos e roupa em segunda mão, muitas vezes dispostos em cobertores diretamente no chão.
O próprio nome já o revela. Bab el Had significa ‘Portão do Domingo’, uma referência direta ao mercado semanal que tem marcado este local há séculos. Nos outros dias, os souks circundantes mantêm-se ativos, mas com uma energia diferente. As lojas e bancas permanentes centram-se mais em artigos para o lar, tecidos e artigos de uso diário de que os residentes realmente precisam. Se só visitou os souks mais turísticos em Marraquexe ou Fes, isto vai parecer uma experiência completamente diferente, porque, em grande parte, é mesmo.
Os ofícios tradicionais ainda estão vivos nas proximidades de Bab el Had?
Existem, mas é preciso saber onde procurar. Escondidas nos becos mais estreitos atrás da praça principal, pequenas oficinas continuam a produzir artigos em couro, objetos em cobre e têxteis cosidos à mão, utilizando técnicas transmitidas de geração em geração. Não se trata de demonstrações encenadas para os visitantes. A maioria destes artesãos vende diretamente aos habitantes locais e a compradores grossistas.
O panorama geral confirma esta conclusão. De acordo com um relatório de 2026 publicado pela La Vie Economique, o setor do artesanato de Marrocos emprega mais de 2,6 milhões de pessoas, o que corresponde a cerca de 22% da população ativa do país, e contribui com cerca de 7% do PIB. Dito isto, nem tudo está a avançar na direção certa. Trinta e dois ofícios tradicionais correm atualmente o risco de desaparecer, o que levou à renovação de um programa de conservação da UNESCO, prorrogado até 2030.
Vale a pena referir que os preços na zona de Bab el Had tendem a ser significativamente mais baixos do que nas medinas mais turísticas, como Fez ou Marraquexe. Se pretende comprar artigos marroquinos feitos à mão sem ter de se submeter a regateios agressivos, as ruas em redor do portão são uma excelente alternativa.
Será que a zona tem mais para oferecer além das compras?
Na verdade, bastante. As ruas em redor de Bab el Had funcionam também como um ponto de encontro social, especialmente à noite, quando famílias, músicos de rua e vendedores ambulantes de comida ocupam a praça. Durante Ramadão, a zona assume um carácter completamente diferente à medida que se aproxima a hora do iftar, com longas filas de bancas a vender sumos frescos, chebakia, e harira. Realizam-se regularmente encontros locais e eventos informais sem grande divulgação. Pode dar por si a encontrar um grupo de músicos gnawa numa sexta-feira à noite ou assistir a um jogo de futebol improvisado numa das ruelas. Nada disto é organizado para os turistas, e é precisamente isso que faz com que valha a pena ficar por aqui.
Como deve planear uma visita a Bab el Had
Conhecer a história e o ambiente é uma coisa. Ir até lá e percorrer a zona sem perder metade do dia é outra. Esta secção aborda o lado prático da visita ao famoso Portão dos Almóadas, em Rabat, desde organizar-se até escolher a época certa do ano e encontrar um sítio para ficar nas proximidades.
Qual é a melhor forma de se orientar nesta zona?
A forma mais fácil de chegar ao portão é de elétrico. A paragem de Bab el Had fica mesmo em frente ao portão, por isso basta descer do elétrico e já está lá. A partir da Ville Nouvelle, o passeio demora cerca de quinze minutos ao longo da Avenida Mohammed V, que é simples e está bem sinalizado. Se vier de táxi, basta mencionar o nome do portão, pois todos os motoristas de Rabat o conhecem.
Uma vez dentro da medina, esqueça os mapas por um momento. As ruelas não seguem qualquer padrão lógico, e o GPS tende a enlouquecer entre as muralhas. Uma estratégia melhor é usar este portão como ponto de referência. Passeie o quanto quiser, mas guarde na memória a direção geral para voltar ao portão. Algumas coisas que vale a pena ter em conta:
- As manhãs, antes das 10h, são as melhores para tirar fotografias e dar um passeio mais tranquilo pelos souks
- Os domingos ficam rapidamente cheios, especialmente na zona do mercado, por isso chegue cedo se quiser ter espaço para se movimentar
- Guarde os objetos de valor num bolso da frente ou numa mala a tiracolo, não porque a zona seja perigosa, mas porque fica mesmo lotada
Qual é a melhor altura para visitar?
O clima de Rabat faz de Bab el Had um destino para todas as épocas do ano, mas certos períodos conferem um toque especial à experiência. A primavera, de março a maio, tem uma temperatura média de entre 15 °C e 20 °C, o que é ideal para passar horas ao ar livre sem que o calor nos deixe exaustos. As temperaturas no outono variam entre entre os 21 °C e os 27 °C e costumam ter menos gente, o que as torna o equilíbrio ideal entre o tempo e o ambiente.
O Ramadão merece uma menção especial. A zona em redor deste portão transforma-se completamente na hora que antecede o iftar, com barracas de comida a surgirem do nada e o cheiro a harira e a chebakia fresca a encher todos os recantos. Se a sua visita coincidir com o Ramadão, Não deixes de estar na praça por volta do pôr-do-sol. É um daqueles momentos para os quais nenhum guia turístico te prepara totalmente.
Que outros locais vale a pena visitar perto de Bab el Had?
A localização do portão permite-lhe aceder facilmente a vários pontos turísticos que a maioria dos visitantes planeia visitar de qualquer forma. O Kasbah dos Udayas fica a cerca de dez minutos a pé para norte, no alto, acima da foz do Rio Bou Regreg. A partir daí, o Jardins da Andaluzia ficam logo a entrar nas muralhas da kasbah e são o local ideal para uma pausa tranquila após a agitação dos souks.
Seguindo na direção oposta, o Torre Hassan e o Mausoléu de Mohammed V ficam a cerca de vinte minutos a pé ao longo do rio. Se escolher Bab el Had como ponto de partida para o dia, poderá visitar os três locais com facilidade, sem ter de voltar atrás nem precisar de transporte.
Onde se deve ficar perto de Bab el Had?
A localização é mais importante do que as classificações por estrelas quando o objetivo é conhecer a medina como deve ser. Ficar num local com fácil acesso a Bab el Had significa que pode planear as suas visitas à medina sem a pressão de ter de encaixar tudo numa única viagem. A flexibilidade de poder voltar uma segunda ou terceira vez muda completamente a forma como se explora.
STORY Rabat fica a cerca de vinte minutos de carro do portão, o que, em termos de Rabat, equivale a uma curta viagem de táxi. Essa distância acaba por jogar a seu favor. Tem assim uma base tranquila e confortável, afastada do barulho da medina, mas suficientemente perto para que uma visita espontânea à tarde nunca pareça um grande compromisso. Depois de um dia inteiro a percorrer os souks sob o calor marroquino, essa separação entre o caos e a tranquilidade é algo que irá apreciar genuinamente.
Vale a pena visitar Bab el Had?
Para concluir, este não é um daqueles locais emblemáticos que se visita só porque um guia turístico o recomenda. Este antigo portão almóada merece o seu lugar no seu itinerário por ser genuinamente útil como ponto de partida, como ponto de referência, e uma apresentação sincera sobre como Rabat funciona realmente, para além da versão turística tão bem apresentada. Quer venha para o mercado de domingo, para as barracas de comida durante o Ramadão ou simplesmente para ver a cidade a viver ao ritmo que mantém há séculos, a experiência não desilude. Sem visitas guiadas programadas, sem taxas de entrada, sem multidões a posar para a mesma fotografia. Apenas um portão, uma praça e aquele tipo de vida quotidiana que a maioria dos viajantes diz desejar, mas que raramente encontra. Se há um único local em Rabat que nos permite conhecer tudo o que é preciso saber sobre a cidade numa única tarde, esse local é Bab el Had.






